Operação Shylock em Campinas prende 7 e apreende 10 armas; 18 pessoas perderam imóveis
MP-SP e polícias cumprem 11 prisões preventivas e 24 mandados de busca nesta sexta-feira (6) contra grupo suspeito de agiotagem.
Uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) contra um esquema de agiotagem em Campinas prendeu pelo menos sete pessoas e apreendeu dez armas de fogo nesta sexta-feira (6). Segundo o g1, o grupo investigado é suspeito de emprestar dinheiro ilegalmente e tomar imóveis de pessoas que não conseguiam pagar as dívidas.
Batizada de Operação Shylock, a ação cumpriu 11 mandados de prisão preventiva e 24 de mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça. De acordo com as investigações, ao menos 62 pessoas foram identificadas como vítimas do esquema, e 18 delas perderam suas propriedades. O prejuízo apurado até agora passa de R$ 3 milhões, conforme apurou o A Cidade ON.
Como o grupo agia
Segundo o MP, os suspeitos ofereciam empréstimos particulares e exigiam imóveis como garantia. Para isso, usavam contratos com cláusula de alienação fiduciária, mecanismo que permite transferir a propriedade ao credor em caso de falta de pagamento. As vítimas precisavam obrigatoriamente ter imóveis registrados em seu nome para conseguir o dinheiro.
A investigação aponta que o grupo tinha estrutura organizada, com divisão de tarefas: enquanto alguns integrantes procuravam interessados e negociavam os valores, outros preparavam os contratos, administravam o dinheiro e cobravam as dívidas. Os suspeitos também são investigados por usar empresas de fachada e transferir bens entre pessoas e empresas para ocultar a origem dos recursos.
De acordo com o promotor Rafael Salzedas Arbach, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Campinas, os contratos pareciam lícitos, mas escondiam condições mais duras do que as apresentadas.
“Eles faziam um contrato que no conteúdo parecia um contrato lícito, que previa um vencimento de curto período, de dois ou três meses no máximo, com juros de 1% ao mês. Mas, na verdade, era um contrato sem data definida, com pagamento de mais ou menos 3% ao mês de juros. A pessoa ia pagando e, se ela não pagasse, eles iam lá, apresentavam um cálculo superfaturado e executavam essa garantia e pegavam o imóvel para si.”
O promotor relatou ainda que, em alguns casos, os próprios suspeitos se recusavam a receber o pagamento da dívida. Como as parcelas eram quitadas por boletos e chaves Pix aleatórias, o grupo alegava não reconhecer os depósitos, segundo ele.
Escrevente de cartório entre os alvos
Entre os alvos da operação está um escrevente do 4º Cartório de Notas de Campinas, na região do bairro Nova Campinas. Conforme o MP, ele ajudava a dar legitimidade aos contratos do esquema e cobrava um valor extra para dar andamento aos negócios do grupo.
Em nota, o cartório afirmou que não é investigado e não tem envolvimento com os fatos apurados, e que a apuração envolve exclusivamente o funcionário, sem relação com os serviços prestados. A defesa do escrevente informou que pediu acesso aos autos, que tramitam sob sigilo, e que só deve se manifestar depois de analisar integralmente os documentos.
Onde foram cumpridos os mandados
As buscas ocorreram em endereços residenciais e comerciais de nove bairros da cidade. Segundo a polícia, passaram por Cambuí, Jardim Chapadão, Parque Prado, Nova Campinas, Nova Europa, Taquaral, Vila dos Plátanos, Vila Lemos e Vila São Bernardo, além de locais ligados às empresas investigadas.
A Justiça também determinou o bloqueio de dinheiro e bens dos investigados e o sequestro de imóveis, para impedir que as propriedades fossem vendidas ou transferidas durante a apuração. A operação foi coordenada pelo Gaeco de Campinas, com apoio das polícias Militar, por meio do 1º e do 10º Batalhões de Ações Especiais de Polícia (Baep), e Civil, pelo Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro.
O nome da operação faz referência a Shylock, personagem da peça “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, conhecido por emprestar dinheiro e exigir garantias rigorosas no pagamento de dívidas. As investigações seguem sob sigilo.
Fontes desta matéria
- g1
- A Cidade ON
- MP-SP
- Gaeco de Campinas
- Polícia Militar
- 4º Cartório de Notas de Campinas
- MP